Bolinha laranjinha tal e qual à minha
Já há muito que me debato com a definição de "normal" ou de "normalidade".
Antes de mais, para começar a minha busca com alguma objetividade, fui ao dicionário. Em primeiro lugar, refere que normal designa o que está conforme a norma ou a regra.
Depois entra um bocado em descalabro (na minha parca opinião) e diz que se utiliza para referir aquilo que é o modelo ou o exemplo. E, por fim, na mesma onda da designação anterior, afirma que também se pode mencionar quando falamos de algo regular, habitual ou ordinário.
Isto de ser um adjetivo tem que se lhe diga.
Dei comigo a pensar que, quando dizemos que algo não é normal, na verdade, estamos a dizer que é anormal.
Então, deixa cá ver o que o senhor dicionário acha da palavra anormal. E cá vai: que se afasta da norma ou da média, que faz exceção, que é irregular ou, esta é das boas, anómalo.
Quando me abordavam com esta afirmação, comecei a adotar uma postura, e contra-argumentação deliberada de
"Pode não ser comum, mas não quer dizer que não seja normal!".
O que é um contrassenso...
Então, tive de prestar atenção à minha resposta e ao que me levava a escolher este argumento.
Cheguei à conclusão que aquilo que eu penso é que, na realidade, quando nos referimos a alguém ou a alguma situação como não sendo normal, não estamos, propriamente, a dizer que isso não é comum.
"Não existem crianças normais. Não existem crianças anormais.
Todas as crianças são extraordinárias. Todas as crianças são irregulares.
Todas as crianças são modelos únicos e, por definição, diferentes na sua perfeição.
Todas as crianças são."
Normas e regras estão na nossa cabecinha.
Fomos nós que as criámos. Será que interessam?
Será que têm razão de existir?
Se calhar sim mas, sinceramente, é tão limitativo e redutor que deveria estar guardado na parte de trás da gaveta das cuecas, da nossa mente.
Ando eu às voltas com a normalidade e o meu Henrique encontra uma laranja. Igualzinha à famosa bola laranja, mas presa.
"Olha minha mãe, a bó, chão...", apontando de cima, para baixo.
Entro numa espiral introspetiva... Ele já está habituado à demora das minhas respostas. Sabe que eu tenho de pensar bem no que lhe vou dizer. Sou assim.
A bolinha, é uma laranja, filho, também cor de laranja igual à tua bola de brincar, mas esta, bolinha também cor de laranja, é de comer, por isso ainda está presa na árvore. Queres provar? Ainda não caiu porque não está madura...
Quererá dizer que a bolinha não é normal?
Não é esta a resposta que quero. Não há normal nem anormal.
A laranja fica na árvore, porque é dali onde nasceu. A tua bolinha ficou em casa, podia pô-la aqui ao lado para veres como são diferentes, e a tua bola não está presa, nem nasceu daqui, a tua bolinha é feita para saltitar enquanto brincas, poderes-la levar para qualquer lado...
Deverei dizer que é especial? Não, ambas as bolinhas são especiais, tal como são.
E de repente, saiu-me assim:
"Sabes Henrique, existem laranjinhas e bolinhas de muitas cores.
Embora estejas mais habituado a vê-las no balcão da cozinha, ou a bola a saltitar pelo chão, não quer dizer que não existam muitas outras bolinhas de diferentes cores, por aí a saltitar. Só tens de estar atento e abrires o teu coração."
Sorriu-me e observou a laranja num momento de atenção plena, consciente, sem julgamentos e com muita curiosidade.
(Para todas as bolinhas. E todas as cores de laranjinhas. Com ou sem pé, para presas ficar.)

