Devolver pela Vida
A vida, muitas vezes não ocorre como esperamos. Abrirmo-nos ao feliz acaso pode ajudar-nos a seguir em frente.
"Mostra-me a tua agenda e diz-me onde gastas o teu dinheiro e eu dir-te-ei quais são as tuas prioridades."
- Joshua Fields Millburs, in The Minimalists podcast.
Não conheço uma única pessoa cuja vida não tenha corrido exatamente da forma que planeou.
Vivemos num mundo de expetativas, especialmente nós aqui no Ocidente. Começa quando vamos para a escola: Passar nos exames, Casar. Comprar uma casa. Ter filhos. Viver feliz para sempre.
É muito frequente acreditarmos que as nossas prioridades são coisas como a família, os amigos, a nossa saúde... Mas na realidade, se analisarmos bem, muitas vezes estamos a aplicar a grande maioria da nossa energia e do nosso dinheiro em coisas muito diferentes.
... Por vezes até estamos bem conscientes de que não estamos a viver de acordo com as nossas prioridades e valores porque pensamos que a vida é assim mesmo e não temos hipótese de escolha.
Eu acredito que temos sempre escolha.
Chamem-me ingénua ou até hipócrita (já aconteceu🤷) mas eu acredito genuinamente que podemos sempre procurar a mudança se sentimos que precisamos de alinhar a forma como vivemos com as nossas prioridades e valores.
E, na verdade, a vida raramente se desenrola de uma forma tão linear mesmo quando essa é a vida que planeámos. Perdem-se empregos, e os casamentos terminam, bebés muito esperados que nunca chegam.
Percebemos, então, que somos uma peça quadrada a tentar entrar num buraco redondo e auto mais tentamos controlar, menor é o controlo que efetivamente temos.
O controlo é uma ilusão, uma forma de gerir o medo quando confrontados com tantas incertezas. Quanto mais velha fico, mais consigo percepcionar a futilidade de tentar controlar qualquer coisa na minha vida.
Quando penso que tenho a coisa controlada, acontece algo que inverte a situação, por isso, o melhor plano é deixar ir... Quando me rendo ao facto de não conseguir controlar a situação, pessoa ou resultado, a vida começa a fluir novamente.
E rendo-me!
É o sim à aceitação do que realmente se é!
Olho de frente, falo em comunhão, mesmo que tudo trema mas que era importante aceitar deixar ir.
É deixar ir o barco seguir a corrente do rio em vez de tentar remar furiosamente contra.
É confiar que a vida nos levará onde precisarmos ir, sabendo que estamos prontos para lidar com o que quer que apareça.
Quando me rendo, liberto-me conscientemente do controlo, mas por vezes, rendição é forçada.
Quando perdi o meu companheiro, não tive outra opção senão render-me ao meu sofrimento.
Lembro-me de pensar que nunca iria sobreviver sem estima, junto com o meu filho ainda por nascer, (ou não), o caso ficou em minhas mãos, mas aqui estamos nós), estou eu, quatro anos depois, com o presente de saber ao que sobrevivemos.
Felizmente, não precisamos de experimentar uma dor tão desgastaste que é praticar a rendição.
Comecei por manter a minha atenção no momento presente em vez de pensar muito no amanhã.
Deixei de um dia para o outro reter lembranças em molduras, gavetas, armários, despensas, e empilhei sacos para doação. Deixei os braços guiarem até onde eles quisessem ir.
Estive perdida no pior dos cenários, com uma casa e bebé às costas, e mãe, também, para cuidar.
Divaguei. pedi ajudas, e construí o melhor do que já era. Ser persistente na força que sempre alguém me deu. Não sei precisar donde, mas sei que me gosto, imenso!
E questionava-me: O que de melhor poderá acontecer?
Pensei em todas as situações complicadas que terminaram bem. Uma conversa difícil. Um desafio ultrapassado. Lembrei-me de pequenas vitórias: aquela vez que cheguei atrasada ao meu compromisso e o mundo não acabou.
O dia em que perdi.. Um pai, um avô, eu queria ter muito este meu filho. Não queria mais perder ninguém.
Ao facto de estar viva neste momento significa que sobrevivi e encontrei 'o' presente, a todos os acontecimentos do meu passado que me trouxeram até aqui.
Há três anos, por esta altura do ano, estava em caos instalado, com o Henrique de quatro meses, sem carro, e sem prática para conduzir. Comprei-o a pronto, o meu Xerife, e reformei toda a casa com as minhas poupanças e heranças com a intenção de quebrar memórias, e em mais fácil limpar.
Para assim moldarmo-nos a novos hábitos.
Só nós os três.

Quando a casa estava linda e eu cheia de esperanças, mas, apoderou-se o meu desemprego com o Henrique com um ano de idade.
E de repente, tudo parecia algo irresponsável.
Não consegui perceber como isto funcionaria senão tivesse uma casa e uma mãe que sempre me dá um olhinho pelo meu fiel amigo, filho, (e vice versa).

O meu sonho, o de ter um filho concretizou-se. Mas em manter o mesmo horário de trabalho, foi muito protelado. Então, a semana passada, com uma nota da semana, entrou-me uma bonsai de um metro, para dentro de casa - literalmente através dos meus braços e embaraços, da loja, pelo meu carro, e sala, ficar.
É de uma linha Ficus pela qual já antes trouxe, mas que stressou pelo ambiente, mesmo adubando, claridade, água e poda.
Infelizmente não trazem chip para que se lhe possam identificar os sinais das faltas ou excessos, mas desde que chegou, não mais saiu do meu lado e visão.

Estranhamente, nunca mais pensei em voltar a ter uma bonsai, mesmo com o anterior desfecho, a mesma espécie da anterior, - "outra figueira, pensei eu Wwouch!!"
Eu queria uma casa cheia, uma casa onde se respira-se família, inter ajuda e coesão.
Mas ela agora está aqui, uma árvore super selvagem, que pode até ter uma visita temporária, mas que virou as minhas expetativas ao contrário.
Neste momento não me imagino mais viver sem família e plantas ao meu redor.
Deixei de controlar o meu sonho e ainda algo melhor aconteceu.

